Sinopse - Disritmia

Dante observa atentamente a paisagem ao alcance dos seus olhos. Do 27º andar do prédio, o dia é úmido e o calor intensifica seu contato com o ar. Nada mais faz sentido a partir do momento em que nada se sabe a seu respeito. A vida torna-se um mosaico cujos fragmentos não se encaixam.

Dias se passaram até aquele momento. Dias de pura incompreensão, dias de revelações que traziam a luz e em seguida a levava. Jaded fez parte desse processo. Uma namorada presente e uma desconhecida na relação.

Jacques era a companhia em irmandade. Quando Dante tenta alcançar o mundo ao seu redor, de repente, tudo se reduz à consequência de um ato. Sua força motriz é entender o que aconteceu.

Capítulo 2



Trilha Sonora: Criminal (Fiona Apple)

O telefone toca. Acordo perturbado de um sono mais perturbado ainda. Uma garrafa de vodka, algumas balas espalhadas, dois pacotes de Ruffles e dois copos sujos é o que eu consigo ver sobre a bancada que separa a cozinha da sala. Tudo isso iluminado pelo poste que incide sua luz diretamente sobre a minha janela de cortina semiaberta. Um poste aceso indica que a noite já chegou e eu dormi mais do que deveria. O telefone continua tocando, mas eu ainda não reuni forças para levantar e atender. A secretária eletrônica o faz, depois de nove toques. Escuto a voz e logo reconheço, é Jacques dizendo que eu estou demorando e que já passam das oito da noite.
Meu Deus, oito da noite. Algo de muito estranho está acontecendo, não durmo assim há meses, mesmo sob efeito de calmantes.
_ Oi Jacques – digo atendendo ao telefone, depois de me levantar correndo e tropeçar no meu tênis que, para variar, está no meio do caminho.
_ Por onde você anda – Jacques diz.
_ Se eu lhe disser que estava dormindo, você acredita?
_ Talvez sim, se você me disser que tomou uma caixa daqueles comprimidos de valeriana.
_ Falo sério Jacques. Apaguei antes do meio dia.
_ Tudo bem, chega de papo, se arruma que eu te pego aí em trinta minutos, tenho uma surpresa para voltarmos às boas.
_ Então te vejo em trinta minutos!!
Quando Jacques diz que é uma surpresa, realmente pode se esperar algo divertido. Não demoro para me arrumar,normalmente em dez minutos já estou pronto, mas este será o tempo só do banho que eu necessito par acordar de verdade. Uma boa chuveirada cura qualquer mal estar e a minha realmente me deixou novo. Depois da roupa, apenas o que necessito é de um café expresso feito em casa. Tomado esse, estou pronto em exatamente trinta e cinco minutos, quando Jacques buzina lá de baixo, em sua Cherokee.
Normalmente desço rápido, antes mesmo da pessoa pensar em buzinar novamente, mas hoje estou com problemas. Não acho minha carteira que sempre deixo para pegar na última hora. Jacques não gosta de esperar, mas continuarei procurando, tenho dez reais na minha pequena caixa, onde eu deixo sempre algum dinheiro. É tudo de que preciso, afinal de contas, hoje a noite é por conta de Jacques.
Desço as escadas rapidamente, logo depois de apagar todas as luzes do apartamento e trancá-lo.
_ Finalmente, Cinderela – Jacques sempre diz isso, quando demoro mais de um minuto.
_ Não consegui achar minha carteira – digo já dentro do carro.
_ E nem precisa – Jacques exclama me dando um abraço – como você está?
_ Levando, você sabe! Ainda bem que consegui dispensar Jaded hoje!
_ O que você está ganhando dessa relação?
_ Sexo, drogas e destruição...
_ Você sabe que as duas primeiras geram tédio se não variarmos as companhias.
_ Tudo bem , sei que não vai durar!
_ Você sabe que durará o quanto quiser!!!
_Vamos mudar de assunto...qual é a surpresa de hoje?
_ Duas amigas descartáveis, extremamente alinhadas.
Jacques costuma se referir a algumas pessoas como descartáveis. Considero, em parte, que está correto, mas sou um pouco mais compreensivo do que meu amigo sentado ao meu lado.
_ Ótimo! Acho que preciso de companhia nova.
Sábado à noite costuma ser um dia de extremo movimento humano em toda cidade. Jacques adora passar pelo caminho mais movimentado possível, ele se diverte só de observar a mediocridade de alguns.
_ Onde elas moram – pergunto a ele.
_ Na verdade, elas já estão no meu apartamento nos esperando.
_ É melhor você não fazer o caminho que sempre faz, demorará muito!
Digo isso não pensando na impaciência das garotas, mas sim na minha. Todas essas pessoas ao meu redor me fazem sentir mal. Não suporto lugares movimentados, principalmente quando estou como hoje.
_ Você é quem manda – Jacques diz já desviando o caminho.
_ Quem serão os convidados de amanhã, Jacques?
_ Não chamei muita gente, apenas alguns colegas da faculdade.
Jacques cursa administração. Nunca gostou do curso, mas graças à grande insistência do seu pai, ele aceitou.
_ Aqui estamos – Jacques diz depois de estacionar o carro na garagem do seu prédio.
Ele mora sozinho, em um dos prédios mais luxuosos da cidade. Filho de pais separados, que quase não mantém contato porque moram fora, sempre usa o seu grande apartamento para dar festas todo mês.
Subimos o elevador. Jacques diz que vou adorar as garotas, Natasha e Sofia. Espero que esteja certo.
_ Chegamos, garotas – Jacques diz logo depois de abrir a porta.
Lá estavam elas, sentadas no grande sofá azul que se encontra abaixo da janela da sala, por onde entra um vento fraco, porém muito frio. As duas cheiram o pó que se encontra espalhado por cima da pequena mesa cercada pelos sofás.
Jacques me apresenta a elas, estão ligadonas, parecem que vão explodir de tanta energia. As duas são loiras, Sofia tem uma aparência mais atraente, cabelos curtos e lisos, boca pequena assim como o seu vestido vermelho, já Natasha que também não deixa a desejar, com os cabelos longos e roupas mais fechadas, pois está vestida de calça jeans e uma blusa coladinha. As duas escutavam uma suave bossa nova quando chegamos, porém Jacques logo tira, dizendo que o som não proporcionava um clima.
Conversamos por mais ou menos uma hora e meia, Jacques e as duas cheiravam muito, eu não estou para isso hoje, apenas tomo minha tequila em paz.
Depois de atingir um estado de alta entorpercência, Jacques e Sofia seguem para o quarto, eu e Natasha prolongamos um pouco a nossa conversa, pois falávamos sobre música e normalmente quando começo fica difícil parar. No entanto, eu interrompi e então fomos para o quarto.
Transamos muito, ela porque não conseguia parar de cheirar e eu talvez porque, como há muito tempo vêm acontecendo, não sentia nada e cada vez mais buscava o prazer em algo instantâneo. Agora me encontro à janela, olhando para todas essas luzes que nesta noite demoram mais para apagar. Natasha dorme e pelo visto o sexo conseguiu anular o poder das anfetaminas, mas isso me faz sentir mais anormal.
Penso que cada vez mais tudo ao meu redor se torna um pouco mais distante de mim. Tudo se tornou tão questionável pelo fato de parecer tão surreal aos meus olhos. Tudo parece possuir um pedaço de mim e isso faz com que eu queira entendê-las, mas sem antes me entender, não conseguirei fazê-lo. Luto contra minhas próprias ideologias, como se tudo estivesse entrando em um grande inferno astral. A entropia mostra agora um mundo cada vez pior para se habitar.
O céu de hoje ressoa em cores diferentes, talvez nunca vistas antes. Um verde escuro se mistura a um preto e junto com a luz das estrelas cria um ar de penumbra sobre a vasta cidade que parece não querer dormir.
A noite se arrasta através dos ponteiros do relógio. Mais do que nunca as coisas parecem estáticas e mortas. Nada produz efeito sobre meu sistema límbico. Aos poucos começo a me transformar em um poço de neutralidade, tudo porque parece que, quanto mais tento me divertir mais me entedio. Não é possível se esquecer das coisas que gostamos instantaneamente. Mas o problema é que talvez eu nunca tenha feito uma pesquisa sobre meus gostos pessoais.
Um café é a única coisa que me acalma em horas de insônia como agora. A cafeteira elétrica de Jacques facilita o preparo, apesar de que a mistura não resulta em um sabor agradável.
O dia começa a afirmar sua autoridade diante da noite. O grande céu negro que reinava há algumas horas, agora começa a clarear, e pelo visto a noite de Jacques foi melhor do que a minha, afinal de contas ele consegue dormir.
Assisto a alguns filmes que ele costuma gravar, me ajuda a distrair, mas o sol já penetra pela janela e faz com que meus olhos se recusem a ficar abertos. Não tenho ânimo para levantar e fechar as cortinas e então mais uma vez o sono me domina.

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