Sinopse - Disritmia

Dante observa atentamente a paisagem ao alcance dos seus olhos. Do 27º andar do prédio, o dia é úmido e o calor intensifica seu contato com o ar. Nada mais faz sentido a partir do momento em que nada se sabe a seu respeito. A vida torna-se um mosaico cujos fragmentos não se encaixam.

Dias se passaram até aquele momento. Dias de pura incompreensão, dias de revelações que traziam a luz e em seguida a levava. Jaded fez parte desse processo. Uma namorada presente e uma desconhecida na relação.

Jacques era a companhia em irmandade. Quando Dante tenta alcançar o mundo ao seu redor, de repente, tudo se reduz à consequência de um ato. Sua força motriz é entender o que aconteceu.

Capítulos 5 e 6

5

Em algum lugar entre a consciência e a morte, algo começa a ser criado. As mais diferentes e sórdidas manipulações acontecem todos os dias, escravos do fazer, do viver... não se tem mais justificativa alguma para todas as ações.

Morrer se tornou algo que depende de um ponto de vista. Alguns acham que estão vivendo, na verdade estão morrendo, é como viver tudo ao mesmo tempo de trás para frente.

O que existe entre a vida interior e o mundo começa a ser destruído ou distorcido por algo chamado imaginação, que nada mais é do que uma opção de vida.

Garrafas vazias, alguns cigarros espalhados, um corpo caído, algo que deveria sair de outra maneira, contudo não o faz, escorre através do sangue que alguém teve de beber para não ver sua vida ir embora através das coisas as quais todos acham importantes, exceto quem realmente sofre por elas e com elas. Nada justificaria o que, da maneira deles, eles querem que seja. Na verdade, nada seria realmente o que é, porque não se pode entender e não se está interessado em aprender.

Gritos e algumas pessoas atordoadas, nada que não se possa perder e viver como pessoas que buscam seus objetivos de vida. Não se aceita que a vida se perca pela felicidade, pela liberdade, pela busca de algo que nunca se sentiu. Porém tudo segue esvaindo de maneira lenta e clara, porque é assim que tem de ser, e as últimas experiências de vida são baseadas no que se quer, algo novo, algo que realmente, por mais inimaginável que seja, é o que se quer ou o que sempre se buscou, vida fora do que os outros podem lhe oferecer, que não se pode dizer que é ruim, mas definitivamente não é e nunca será o que se busca ou realmente se deseja.

Culpa e ânsia pelo perdão, pela volta, porém o que foi feito não se pode desfazer. O que se escutou toda uma vida parece fazer sentido, porque algo jamais refletido acontece e, em meio a tanta loucura ou simplesmente fuga da realidade, o pensamento se torna pior inimigo, com as lembranças, que foram tão citadas, mas nunca escutadas ou assimiladas. Parece passageiro como uma chuva de verão e que após alguns segundos se torna perene como o mar. Nenhum eclético morre de tédio, todavia esquece todos os dias de pensar para onde segue a vida que o rodeia.

6

Meus olhos estão abertos apesar de eu não ter acordado ainda. Tudo está escuro e se movendo tão rapidamente que a minha mente não consegue assimilar as imagens que parecem se entrelaçarem, formando apenas um corpo não denso. Talvez eu esteja dentro da minha mente, onde tudo se encontra limpo, podre e estéril. Nada se criava nem se transformava nela, não havia liberdade apenas uma total escuridão.

A imagem começa a se tornar nítida. Estou no meu quarto exatamente na minha cama. Tudo se encontra bagunçado como sempre. Roupas espalhadas pelo chão, um prato sobre o velho criado mudo de madeira, com algum resto de comida, uma boa quantidade de cigarros espalhados sobre a pequena mesa na qual eu costumo ler, iluminado somente pela luz do poste que entra pela janela e incide suavemente na penumbra. Duas garrafas de vodka caídas pelo chão dão a impressão de que alguém buscava beber para se esquecer de algo, coisa que nunca me foi necessário. Apesar de tudo, não pareço de ressaca nem identifico sintomas de quem bebeu horas atrás.

Começo a me levantar, tudo reflete certa normalidade, tenho a impressão de que toda a minha vida não passou de um sonho, porém sei que isso não é verdade. Sigo em direção a sala, o relógio pendurado na parede marca oito horas, pelo visto da noite e em ponto. Procuro por Jaded, mas ela não está. Olho na porta da geladeira, procurando por algum recado com de costume. Penso em telefoná-la e logo recordo que não tenho o seu número. O telefone, no entanto, chama a minha atenção, ele se encontra fora do gancho e com um bilhete preso logo embaixo, nele diz: “ENCONTRAR JACQUES ÀS 7 HORAS NO MARY´S BAR - OBS:. OLHAR O ENDEREÇO NO CATÁLOGO”. Parece ser a minha letra, penso, porém, a razão de escrever um bilhete para mim mesmo se tratando de algo tão idiota.

Estou atrasado pouco mais de uma hora. Procuro o endereço no catálogo, acho rápido. O lugar não é tão perto, talvez uns trinta minutos.

Visto-me rapidamente, lavo o rosto e saio às pressas. O único meio de alguém como eu se locomover é através do transporte público e assim, sigo em direção ao metrô. A estação não é longe, mas mesmo assim eu corro.

Em meio a tantas pessoas, vejo o metrô começando a deixar a estação. Apresso-me um pouco mais e consigo alcançá-lo. Não se encontra cheio, o que vem a ser uma novidade. Todos aqui dentro parecem não possuir diferenças, a não ser que alguns dormem. Corpos iguais, executando ações repetidas é apenas o que consigo ver.

Tudo se move rapidamente lá fora, dando pequenas sensações de déjà vu. Busco por recordações de coisas que fiz antes do sono, mas nada me vem à cabeça. O tempo vai girando em volta de mim e de repente estou no meu destino.

As portas do metrô se abrem, o barulho que elas proporcionam, apesar de pequeno diante da poluição sonora de uma cidade como esta, me incomoda excessivamente, pois o som penetra pelo meu ouvido, fazendo minha cabeça chacoalhar.

Estação Holoedro. Penso o que esse nome significa para a maioria das pessoas que transitam diariamente por aqui. Seu formato realmente parece um cristal com faces similares, um projeto um tanto quanto megalomaníaco.

Sigo pela estação e logo depois de subir as escadas que levam até as ruas avisto, já na avenida principal o bar de que me lembro de ter ido algumas vezes. Uma grande placa escrita “Mary´s Bar” em letras neon que chamam a atenção em meio àquele extenso e movimentado quarteirão.

Procuro pelo carro de Jacques, mas não o encontro, talvez tenha parado distante, o que ele não costuma fazer.

A entrada do bar, que fica logo abaixo da grande placa, é apenas uma porta dupla de cor preta. Entro por ela, logo depois de atravessar a avenida, e me deparo com um lugar lotado e talvez até demais para uma segunda-feira como esta. Um corredor limitado por dois balcões, um de cada lado, é a primeira coisa que se vê ao entrar. As luzes são roxas, iluminando os copos pendurados logo abaixo delas. Procuro por Jacques em cada um dos bancos encostados nos balcões, mas não consigo ver muita coisa, não me adapto bem em lugares escuros e barulhentos.

Sigo caminhando pelo corredor cheio de pessoas sentadas, conversando e tomando suas bebidas, mas nem um sinal de Jacques. Não costumo olhar para pessoas acompanhadas, elas, na maioria das vezes, aceitam demais o mundo e com elas eu não me dou bem. Avisto alguém diferente em meio a tantos parecidos. Sentada, sozinha e apenas escutando a música que parece aumentar a sua intensidade a cada passo, mas com toda razão, pois logo no fim do corredor o que se vê é um grande palco com muitas mesas ao seu redor. Uma banda toca e eu ainda não desiste de Jacques, nas mesas, no entanto, ele também não está. Olho mais um pouco, porque o ambiente iluminado apenas pelas luzes do palco não ajuda minha visão, e as mesas pretas sobre um chão que lembra um tabuleiro de xadrez colaboram para a escuridão total. Imagino que estou demasiadamente atrasado.

É inútil procurar por alguém que não aceita atrasos. Penso em ir embora, mas não custa esperar. Sento ao lado da garota que tinha visto sozinha quando entrei. Peço pela oferta da casa. Não tinha reparado, mas ela é realmente linda, rosto branco cabelos pretos e curtos, não parece muito de bem com a vida.

_Esta bebida é uma merda – ela diz logo depois do meu primeiro gole.

Tenho de concordar, o gosto é de anfetaminas depois de mastigadas, algo amargo que causa uma dormência em toda boca.

_Você parece estar tomando uma delas – digo a ela, dando o meu segundo gole, mesmo a contragosto.

_Constatei tardiamente – ela exclama.

_Então a próxima rodada é por minha conta, você escolhe – digo a ela, mesmo sabendo que não estou em um bom momento para mais de um drink.

_Seu rosto não me é estranho.

_Não sei o que dizer em ocasiões como essa. Me chamo Dante.

_Eu sou Milena, Dante. Gostei de você, esquivou-se bem e não tomou controle da situação.

Controle. Creio ser isso a última coisa que possuo nesse momento.

_Procuro por um amigo, mas acredito que cheguei atrasado.

_ Aguarde um pouco comigo, talvez ele apareça.

_Não era necessário o convite e não entenda isso como uma súbita tomada de controle, sua companhia já é convidativa por si só.

Ela não responde apenas sorri e procura pela opção da próxima bebida entre as várias alternativas do cardápio.

A escolha é um mistério e chega rapidamente. Estava em pequenos copos, era realmente tequila, apesar da minha não interferência. Tequilas flamejantes, azuis e ingeridas por canudos. Efeito instantâneo, mas nós tomamos mais duas e continuamos a conversa por mais ou menos duas horas sem beber.

De repente, alguém sai correndo do escuro cômodo ao lado do palco. Um homem alto, vestindo uma jaqueta preta atira uma garrafa em sua direção. A garrafa se explode bem ao meu lado e com isso eu me desloco para frente de Milena com intuito de protegê-la, e o faço às custas de um grande caco de vidro que rasga minha camisa na altura do ombro esquerdo. O sangue já escorre pelo meu braço. Rapidamente a polícia chega à porta e pelos braços sou puxado em direção ao palco com músicos pasmos em seu tablado. Subimos enquanto a bagunça toma conta de tudo. Entramos pelas cortinas e logo depois de andar por apertado corredor mal iluminado, chegamos à porta dos fundos.

_Como está seu ombro? – Milena pergunta logo depois de fechar a porta.

_ Está tudo bem, foi só um arranhão.

_Deixe-me ver – ela diz levantado a manga rasgada.

_Como você sabia dessa rota de fuga?

_Vamos até minha casa, eu faço um curativo, está sangrando muito.

Esquivou-se novamente. Algo causa estranheza.

_Não precisa Milena, vou a um hospital.

_Eu faço questão, afinal moro aqui perto e posso costurar isso se necessário.

Andamos em direção ao seu apartamento, seguindo por ruas desse bairro que nunca havia andado antes. Há um tempo, Jacques havia me falado sobre um comércio paralelo de medicamentos que se implantou por aqui.

Milena não parece pertencer a esse lugar. Apesar de estar com uma fisionomia aborrecida, ela não tem nada em comum com sua personalidade divertida e espontânea. Há tempos eu não conversava com alguém assim. Curiosidade que entretém.

_Adorei seu nome – digo a ela em busca de um tema comum.

_Eu não gosto muito dele!

_Traduz bem a sua pessoa.

_O que é isso? Tentativa de tomar controle da situação? – ela comenta em tom duvidoso.

_Me policiarei melhor daqui para frente.

_É aqui – ela desconversa apontando para a porta de entrada do seu prédio.

Entramos pela porta de madeira e logo depois de passarmos por um logo corredor seguimos pelas escadas. É um prédio pequeno de apartamentos aparentemente pequenos também. Em sua porta se vê uma pequena frase escrita em mandarim e algumas mandalas.

_Fique a vontade e não repare a bagunça – ela diz ao fechar a porta.

O apartamento é como eu pensei, realmente pequeno, na verdade é um conjugado um pouco menor que o meu pelo fato de só possuir um quarto. Sofás pretos, uma mesa e as coisas da cozinha, é só o que tem por aqui.

_Sente-se no sofá e tire a camisa – ela diz depois de buscar uma caixa de primeiros socorros.

Em seguida, eu tiro a camisa vejo que o corte é um pouco maior do que eu pensava.

_Vai doer um pouco – ela diz depois de jogar água oxigenada e álcool.

Um pouco foi gentileza dela, porque dói muito. Mas ela continua, complementando com uma espécie de anti-inflamatório antes de por uma gaze e estancar o ferimento.

Me impressionou a sua habilidade para manusear tudo aquilo, o curativo parece tão perfeito quanto aqueles que se faz em um hospital.

_Você é médica? – pergunto a ela.

_Quem me dera, mas sou enfermeira em um hospital aqui perto, e por sorte sua hoje é quarta-feira, mas não estou de plantão porque trabalhei no fim de semana.

_Você disse quarta-feira?

_Sim, até a meia noite.

Prefiro não comentar. Talvez andei dormindo esse últimos dias ou, talvez, eu simplesmente não me lembro do que andei fazendo, no entanto, são dois dias...

_Agora pressione um pouco na borda do curativo, eu vou fazer um café – ela diz guardando tudo que usou.

_Aquilo que aconteceu ali, acontece sempre?

_Não compreendi o que motivou tudo, o local não é violento.

_Você tem telefone, Milena?

_Só o aparelho, a chuva de domingo derrubou várias árvores e o fornecimento ficou comprometido...

_Estou intrigado com essa história da pessoa que mencionei.

_... meu celular nesse momento deve estar nas mãos ou debaixo dos pés de algum policial ou fugitivo daquela confusão.

_Me recordo vagamente do meu. Não me atrai essa vigilância voluntária que um celular proporciona.

Mãos sob a suave água que cai da torneira, Milena se encarrega agora do café enquanto reflito um pouco em frente ao espelho do banheiro.

_Não abusarei da sua hospitalidade, um café e prometo deixá-la paz.

_Essa é uma expressão pesada.

Ela não hesita em dizer o que vem à cabeça.

_Gosta de morar sozinha? – desconverso.

_Na maior parte do tempo sim. Farei uma proposta sem segundas intenções. Durma aqui.

_Eu deveria tomar o controle da situação agora?

_Não – ela sorri enquanto serve o café. Pela manhã arrumamos uma nova camisa para você no lugar mais próximo.

_Gostei de você e digo, também, sem segundas intenções. Aceitarei a proposta.

Conversamos até o café acabar, ela me deu um cobertor e então eu apaguei no sofá como venho fazendo há algum tempo.

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