O mundo parece correr normalmente, mas eu não. Nada mudou para ninguém, exceto para mim e isso me faz sentir anormal. Toda vez que respiro meu pulmão acusa alvéolos queimados e a fumaça do cigarro me causa dor.
Mais uma vez a vista do meu telhado é companhia de que desfruto. Penso em algumas coisas, procuro relembrar outras, ultimamente, porém, as lembranças abandonam esse exercício.
Os últimos acontecimentos não se encaixam. Tenho a impressão de ter dormido na cena principal do filme. Perdi algumas cenas que parecem vitais. A questão é que: o que está ao meu redor perdeu a capacidade de me afetar. Vivo, não em função de alguma de coisa. Confundo o que o mundo pode me oferecer com o que minha vida pode suportar, mercadologicamente habito a coluna entre expectativa e experimentação. Talvez seja estranho acordar em casa sem saber como cheguei até lá. Talvez seja apenas uma falta de percepção e controle exacerbado de minhas atitudes. O corpo costuma responder à certos comandos e influências, seja com atos reflexivos, com hormônios ou com pensamentos, o meu comando, no entanto, foi forte demais para que percebesse.
A vida pode não significar nada de bom para muita gente, mas ninguém procura enxergar o que a levou a essa condição. Talvez algo muito forte tenha conseguido mudar sua concepção de vida. Uma vida personalidade nasce no corpo de cada um a cada dia. Nunca um dia se encerra sem o deslocar do nosso centro. Tudo é vulnerável para suportar as pequenas mutilações interna. Somos advogados do que acreditamos que seja o destino, defendemos o que julgamos que pertença a nós, sem antes nos julgarmos merecedores. Escreverei isso em algum outdoor.
A chuva continua a cair e já passam das quatro da manhã. Apesar das minhas pálpebras pesarem, meu sono ainda é fraco. Desço as escadas em busca de um café. Penso em oferecer uma xícara aos agentes que me observam de fora. Tudo se movimenta na velocidade certa depois de uma xícara de café. Sento no sofá e só agora percebo que tudo está revirado. Algumas gotas de sangue ainda marcam o chão da sala. Não havia reparado as paredes marcadas por mãos. Jacques deve ter se arrastado pela escada imunda.
A noite começa a se derreter, o sol não aparece, porque a chuva ainda molha as ruas. Pareço um pouco tonto. Olhando do sofá as coisas estão espacialmente estranhas, não só pela desordem. Tudo começa a se tornar instável e escuro, o som das gotas ao tocar o chão me contagiam e a pequena caneca cai no chão.
11
Mais uma vez é a primeira das frases que me vêm à cabeça logo depois de eu abrir os olhos. A cada vez que acordo, sinto tudo ao meu redor se tornando extremamente estranho aos meus olhos. Meu apartamento não reflete mais a minha pessoa como todo lugar que é reservado a somente uma pessoa espelha sua personalidade. Talvez o fato de nada mais refletir as minhas ideias é que está fazendo com que eu me sinta tão deslocado.
O dia hoje realmente não será um dos mais fáceis da minha vida. Começo a perceber que meu mundo assume formas na medida em que é desfigurado. Apesar da proximidade com Jacques, desconheço seus pais, desconheço correlações básicas que a vida social exige. Porém não me ausento das lembranças do que é um resgate de um corpo do local para onde são levados em atendimento aos processos de legitimação. Creio que legitimar seja reconhecer que tal pessoa não mais existe entre aqueles aptos a circularem pelo mundo.
A morte desenha-se estranhamente. No início soa como um verdadeiro ostracismo, alguém banido do convívio social, talvez essa seria a condição que ainda desperta saudades durante um velório. No entanto, encerrado esse, o corpo é destinado a um local que ninguém mais se lembrará. Pergunto-me quantas pessoas atualmente frequentam cemitérios. Isso me leva a deduzir que do ostracismo, somos deslocados, mesmo, para a condição de párias.
Antes de mais nada, a primeira das descobertas que preciso fazer é como o boletim da morte de Jacques foi registrado pela polícia. Sua morte foi em casa, porém pelo pouco que conheci de todo esse tipo de protocolo, pela morte não tão recente da minha mãe, provavelmente consta em sua ficha a caracterização de morte violenta e o pior, em via pública, afinal o corpo foi levado e não apresentado à polícia.
Um detalhe, no entanto, facilitará determinantemente os encaminhamentos, Jacques há tempos havia registrado uma espécie de procuração para que ambos pudéssemos representar um ao outro nos mais diversos contextos burocráticos. Portanto, temos proximidade de parentesco comprovada por esse documento.
A delegacia se encontra cheia como sempre deve estar. Paredes, marcadas por sujeiras que parecem ser de mãos, a que as pessoas se agarram tentando evitar a prisão. O balcão de atendimento está lotado e é pouco provável que eu consiga qualquer informação em meio a tanta bagunça. Mas rapidamente o caso que parecia causar o tumulto é resolvido, pois o guarda chama por sues colegas e juntos fazem com que todos entrem em um corredor que com certeza deve levar até as celas.
Dirijo-me ao policial separado de mim por um bloco de madeira. Ele me questiona sobre o local da morte, deduzo que seja para fins de identificação, residência ou via pública. Arrisco a primeira opção, apesar da incerteza.
_ O delegado lhe espera na sala ao final desse corredor. – ouço isso com a surpresa que não deveria manifestar.
Sigo pelo corredor apontado, as mãos levemente frias me permitem captar o ar quente e úmido que se coloca em meu caminho. O único objetivo aqui é saber o que aconteceu com Jacques. Mas tenho consciência de que eu deveria ter me apresentado aos policiais quando tudo aconteceu, e o fato de não tê-lo feito me torna omisso ao caso, o que pode gerar alguma desconfiança.
Cumprimento-o educadamente enquanto adentro pela sala que encontra-se com a porta aberta. Ele não responde, pelo menos não educadamente, se recusa a demonstrar que é um delegado diferente de qualquer outro. Apenas pergunta meu nome e após oferecer uma das cadeiras vermelhas para eu me sentar. Seu tom de voz não parece apontar nenhuma espécie de desconfiança, mas passadas algumas frases a conversa assume tons mais hostis. Enquanto movimenta firmemente sua mão esquerda, a direita ocupa-se apenas produzir um pequeno barulho resultante do deslizar de seu polegar no dedo indicador, uma espécie de vício que pode me dizer algo. Busco controle, ele começa a citar incessantemente os meus erros relacionados à omissão no momento em que os policiais investigavam meu apartamento. Suas palavras não se assemelham a um julgamento ou ordem de prisão, percebo isso depois que ele começa a apontar a causa provável da morte de Jacques. Ataque cardíaco. Antes que pudesse me expressar, ele observa o documento em forma de procuração que apresentei ao chegar e em seguida completa sobre a confiança que acredita que Jacques depositava em mim, principalmente por não ter pais vivos. Preciso conter-me mais uma vez, entre tantas até agora, afinal essa última informação não foi apresentada por Jacques. Começo a manifestar-me pela proximidade que sempre tivemos, porém ele interrompe uma de minhas frases como se a tudo ignora-se, segue dizendo que pelas razões deduzidas da morte, sua caracterização foi como violenta, porém sem acarretar problemas que envolva terceiros e, por estar em espaço privado e confirmada toda a proximidade que tínhamos nada mais poderia fazer. Seu discurso, longe de um formato dialógico, encerra com a entrega do boletim de ocorrência, um cartão com o endereço do IML e a documentação necessária, ambos dispensáveis aqui, tendo em vista minha experiência.
Antes do IML, graças à conveniência urbana, natural ou artificialmente estruturada, soluciono a pendência do registro de óbito. Tudo muito rápido, pago com cheques, vários, em várias vezes, tantas quantas possíveis.
A coletânea de documentos exigidos pelo IML parece capaz até mesmo de ressuscitar quem já se foi. As paredes e o piso, ambos alvos como não poderiam ser, refletem as luzes brancas, fazendo com que um ar de penumbra se espalhe diante dos meus olhos. Um paradoxo do excesso.
Apenas algumas pessoas na recepção, mas muitas se movimentando pela porta de vidro que separa a sala de espera do interior do recinto.
Peço pela liberação do corpo de Jacques e preencho os formulários necessários. Enquanto isso a funerária já concluiu a outra parte do processo.
Tomo um taxi em direção ao cemitério escolhido. Observo lentamente as pessoas ficando para trás, debaixo da chuva que voltou a cair há pouco. Não consigo deixar de sentir atordoado diante dos meus problemas. Eles são como uma arma, meu corpo como uma bala e minha mente é quem puxa o gatilho. Cada vez que ela resolve disparar, uma marca é deixada pelo problema, assim como uma arma deixa sua marca numérica em uma bala disparada.
A viagem vai se tornando longa aos meus olhos, mas já andamos pelas ruas do cemitério, logo depois de cruzarmos o grande portão de entrada.
Finalmente o carro pára. Eu desço e peço ao motorista que me espere. A chuva ajuda a representar o que seriam as minhas lágrimas que não escorrerem pelo meu rosto. Sigo em direção ao bloco administrativo, uma construção extensa que com seu telhado inclinado faz da chuva cachoeiras cintilantes ao seu redor. Assino, pago, recebo condolências. Flores, de forma alguma.
Caminho em direção à futura sepultura onde o corpo de Jacques se encontra. Centenas de cruzes se espalham pelo meu horizonte, e em pouco tempo uma delas será a de alguém de quem gosto muito. O oceano de párias e eu descolando em meio a essa condição existencial que simula o fim. Olho um pouco o imenso caixão para onde também irei um dia, Jacques já se encontra dentro dele e com a tampa fechada.
Quatro funcionários de cemitério começam a descê-lo lentamente pela cova que possui alguns lírios ao seu redor, cortesia da casa acompanhada por um padre que brevemente professou algumas palavras.
Os quatro rapazes olham em minha direção como fuzileiros aguardando o aceno de seu comandante para a execução sumária. Apenas sinalizo com as mãos. A terra começa a chocar-se contra a madeira enquanto dou as costas para tudo e sigo em busca das respostas que preciso.
Entro no carro e sigo em busca de Milena. Mesmo com tantos problemas estive refletindo com ela está. Não sinto o que queria sentir, não sou o que queria ser, na verdade o que exijo não importa mais, porque não há pelo que lutar.
12
O táxi pára em frente ao prédio que já me traduz uma experiência.
Pago a corrida e observo o carro se perder na próxima esquina enquanto fixo um marco, um acontecimento, passado e futuro, talvez não, talvez eu já esteja no futuro do acontecimento vivenciando seus desdobramentos e, portanto, o que eu defino como acontecimento desloca-se intensamente no tempo, três dias que pareço não apreender, e em função disso não tenho um marco referencial, apenas margens de flutuação, fundamentadas em coordenadas de infinitas combinações.
As luzes do apartamento de Milena encontram-se acesas, pelo visto todas elas. Toco o interfone e logo percebo que ela se projeta pela janela, gritando imediatamente que vai abrir. A porta de vidro destrava. Subo as escadas com a sensação de que minha visita já era esperada, estou mais previsível do que poderia eu prever.
Sou recebido na porta do apartamento com uma suave pergunta sobre o motivo da minha aparição. Meu real motivo talvez não seja o que ela realmente quer escutar, mas de vê-la é o melhor deles.
Procuro entender essa improvável proximidade e repentina intimidade. Um café já roda na cafeteira enquanto aguardo sentado no sofá ao som de algumas palavras que Milena dirige a mim da cozinha.
_ Como vai o curativo – ela pergunta já me entregando uma xícara fumegante.
Já havia esquecido sobre o incidente, leve ferimento é preciso dizer. Mais alguns instantes de silêncio e será preciso resgatar assuntos das profundezas que não possuo. Jacques será um tema inevitável, ela, no entanto, se arrisca primeiro perguntando-me sobre o desfecho de nosso desencontro no bar.
_ Jacques está morto – refiro-me a ele como se fossem íntimos e percebo meu deslize e insensibilidade ao notar seu semblante assustado.
_ Quase fui surpreendida pela sua tentativa de controle, Dante, no entanto, a firmeza da sua voz me apresenta a verdade. Mas como ocorreu? Foi por isso que ele não apareceu? – ela demonstra ansiedade nas perguntas intercaladas.
Controle parece ser o elo que nos une. Não sei se quero demonstrar controle ou não sobre esses fatos que me fogem por completo. Também não sei como consegui montar toda história para apresentar a Milena o fragmento que desejo. A caracterização policial, morte violenta em residência, colaborou para uma versão que apontou Jacques como alguém na faixa etária fora das vítimas potenciais de um enfarte, porém não isento de tragédias.
Tudo parece se conformar com uma mentira ou meia verdade. O episódio agora, pelo menos entre eu e ela descreve um amigo com nenhuma suspeita de problemas de saúde, mas que subitamente foi vítima de um ataque cardíaco fulminante enquanto esperava na porta da minha casa.
_ Trágico tudo isso. – ela afirma um pouco incomodada com tudo.
O vento sopra agora suavemente pela janela. Enquanto levanto a xícara para levar à boca sua intensidade aumenta e a cortina se choca ao meu pulso derramando o restante de café que sobrava, quase frio.
Milena traz um pano da cozinha e o leva à altura da minha barriga onde a maior parte do líquido se reteve. Talvez não seja o melhor momento da minha vida para me aproximar de alguém assim. Não resisto. Um beijo. Como nunca talvez, quase um hesitar por trás de tudo. Alguém junto comigo nesse buraco atual, talvez essa proximidade toda seja apenas da minha cabeça.
Sento um pouco. Sem diálogos, ambos parecemos entender bem o que se passa. Ela precisa sair para trabalhar, eu preciso resolver pendências.

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