Sinopse - Disritmia

Dante observa atentamente a paisagem ao alcance dos seus olhos. Do 27º andar do prédio, o dia é úmido e o calor intensifica seu contato com o ar. Nada mais faz sentido a partir do momento em que nada se sabe a seu respeito. A vida torna-se um mosaico cujos fragmentos não se encaixam.

Dias se passaram até aquele momento. Dias de pura incompreensão, dias de revelações que traziam a luz e em seguida a levava. Jaded fez parte desse processo. Uma namorada presente e uma desconhecida na relação.

Jacques era a companhia em irmandade. Quando Dante tenta alcançar o mundo ao seu redor, de repente, tudo se reduz à consequência de um ato. Sua força motriz é entender o que aconteceu.

Capítulos 3 e 4


Trilha Sonora: Simple Man (Lynyrd Skynyrd)

_ Acorde – Jacques diz respingando água nos meus olhos.

Não me sinto bem, minha boca está extremamente seca e com um gosto amargo, mas não me lembro de nada que comi, bebi ou usei antes de dormir. Pela intensidade solar e a cara nada amassada de Jacques já passa do meio dia.

_ O que há com você – Jacques insiste com a água.

_ Tudo bem, já acordei, só preciso de um pouco de água e das horas.

_ Talvez você ache que é meio dia.

Às vezes ele costuma adivinhar o que eu penso.

_ Diga que acertei na mosca!

_ Se enganou por quatro horas e alguns minutos, porque já passam das 16 horas, e é melhor você se levantar logo.

Neste momento começo a perceber que há semanas não sou testemunha de uma tarde e isso me estimula a levantar.

_ Elas já foram? – pergunto a ele me levantando e dirigindo à geladeira atrás de um pouco de água gelada.

_ É claro! Como você iria se sentir se transasse a noite inteira com alguém e de repente deparasse com ela dormindo no sofá da sala? – Jacques diz um pouco irritado.

_ Não tive a intenção. Simplesmente apaguei!

_ Vou te levar a um médico na segunda, você querendo ou não.

_ Ora Jacques, você sabe que odeio médicos – digo a ele depois de virar o terceiro copo de água.

_ Não vou discutir com você agora! Jaded já te ligou mais de três vezes e quis saber por que você dormiu aqui.

_ Eu não aguento mais ela atrás de mim, está ficando insuportável.

_ Outra coisa, ela disse que está lhe esperando no mirante há vinte minutos, tudo bem que você não aguenta ela atrás de você, só não marque encontros nos quais você não vai comparecer.

Banho rápido. Jaded odeia se sentir rejeitada e eu acho que é isto que estou fazendo com ela, rejeitando-a.

Acho que tenho mais roupas aqui do que no meu próprio apartamento.

O relógio da parede informa que faltam apenas dez minutos para as cinco da tarde, mas eu me encontro pronto para ouvir todas as reclamações de Jaded.

_ Jacques, eu já vou saindo!

_ As chaves do carro estão em cima da mesa.

_ Você não me deixou nem pedir – digo a ele, pegando o pequeno chaveiro com o nome de Jacques grifado.

_ Não cheguem aqui na festa brigados – Jacques exclama.

_ Vou fazer o possível – digo a ele, fechando a porta do apartamento.

Não gosto de ligar para Jaded, até porque não tenho o seu telefone, ela me deu uma vez, mas eu perdi. Em seis meses só liguei para ela duas vezes e nunca para a sua casa.

Tudo de que eu precisava era um passeio de carro sozinho, mesmo que por pouco tempo. Acendo a cigarrilha que Jacques sempre guarda no porta-luvas, escuto um som e relaxo a mente.

A viagem nunca é demorada quando se está em um carro desses. Qualquer acelerada e parece que o carro irá decolar. Câmbio automático proporciona um maior conforto, uma vez que se tem uma mão destinada apenas a segurar o pequeno cilindro que queima lentamente. O ar condicionado torna o ar mais denso fazendo com que a fumaça vá se tornando estática em toda atmosfera. Agora realmente me sinto bem e relaxado, até chagar ao meu destino e encontrar Jaded com uma expressão que dá para ver que seu maior desejo agora é me matar.

_ Quem você pensa que eu sou? – ela grita logo depois de eu escorar a porta do carro.

Simultaneamente todos começam a nos assistir e a platéia é grande, porque hoje é exatamente o dia de maior movimento e o horário colabora para ao mesmo.

_ Sem escândalos, por favor – digo a ela pegando-a pelo braço para nos posicionarmos atrás do carro.

_ Você me deve explicações, Dante!

_ Não fiz nada para te dever explicações e mesmo se tivesse feito não lhe deveria nada.

_ Então diga por que você estava dormindo na casa de Jacques e por que tinha uma mulher lá?

_ Não tinha ninguém lá.

_ Ora, Dante, uma tal de Natasha atendeu o telefone e disse que você estava dormindo.

Jacques não me contou este detalhe para que eu pudesse preparar algo. Jaded, às vezes, ou na maioria delas, extrapola o nível aceitável de ciúmes.

_ Jaded, o que você acha que uma mulher estaria fazendo na casa do meu amigo com ele lá, enquanto dormia?

Vejo pela sua fisionomia que minhas palavras alteraram suas conclusões precipitadas. Espero que Sofia não tenha atendido as outras chamadas e que nenhuma das duas compareça à festa.

_ Vou tentar acreditar, mas a questão é por que você dormiu na casa de Jacques e por sinal o dia inteiro e ainda me deixou aqui esperando?

_ Eu estava com uma insônia horrível, então liguei para ele e o chamei para beber algo. Ele me buscou em casa e ficamos de bobeira no seu apartamento bebendo até tarde.

Percebo que estou melhor do que nunca em desculpas. Porém, espero não ser confrontado.

_ Você deveria olhar essa sua insônia – ela diz já mudando de assunto, porque viu que perdeu os argumentos.

_ Então estamos em paz agora? – pergunto a ela já abraçando-a e levando-a para onde a vista é mais agradável.

Sentamos em uma das mesas do pequeno bar e começamos a beber e jogar conversa fora, acho que pela primeira vez nos comportamos como dois namorados de verdade. As horas foram passando extremamente rápido e eu não senti o tempo passar. O sol já foi embora por completo, finalizando o dia quente e escaldante como há muito não via.

O bar renovou seu público e eu e Jaded entretidos na conversa não percebemos nada, mas de repente olho para o relógio na parede do bar e ele marca 22:30.

4


Trilha Sonora: Grace (Jeff Buckley)


Jaded canta uma música que eu não consigo reconhecer. Enquanto isso eu fico um pouco preocupado com a reação de Jacques, afinal de contas a festa estava marcada para as nove horas da noite.

O carro segue em alta velocidade e depois de muito tempo perdido em meio a sinais e engarrafamentos, eu e Jaded chegamos ao prédio de Jacques.

O elevador sobe rapidamente da garagem até o 27° andar. Finalmente ele pára, a porta se abre, mas não conseguimos ouvir o som da festa mesmo estando no corredor. Isso acontece não porque o som está baixo ou coisa parecida, e sim porque as paredes são de concreto, o que impede o som atravessá-las.

Abro a porta do apartamento que hoje se encontra com uma placa pendurada dizendo: “SOMENTE PESSOAL AUTORIZADO”. Me deparo com a sala cheia. Todos espalhados e cada um com um copo na mão e outros com um cigarro também.

Jacques vem vindo em nossa direção, logo depois de eu fechar a porta, ele dá um abraço em Jaded e outro em mim, dizendo apenas que eu estava perdendo a festa.

Senti pelo som da sua voz que ele está mais louco do que o normal. Seus olhos latejam e sua face parece estar totalmente enrijecida por contrações musculares. Logo depois de dar algumas palavras conosco, ele é abordado por uma garota que desconheço. Os dois saem aos beijos e começam a dançar. Para minha tranquilidade isso descarta a presença de Sofia e Natasha.

O álcool que eu Jaded consumimos nos subiu à cabeça, no entanto parece que muito pouco. Continuamos então de onde paramos. Preparo um drink à base tequila para nós dois.

Continuamos conversando como vínhamos fazendo desde o mirante. Pelo visto, começamos a nos entender melhor. A festa continua à nossa volta, mas parece que chegamos um pouco tarde. Não tive interesse em conhecer ninguém. São pessoas que estão aí para se divertir e não para me entreter. Certa vez li um poema que dizia: “nenhum homem é uma ilha”, mas eu procuro ser uma há algum tempo, afinal de contas, não faz sentido buscar algo que não conseguirá acrescentar nada em sua chata e entediante vida.

Adoro a pequena bancada do bar que se encontra na sala. É o melhor lugar para ficar quando se procura um isolamento completo. As pessoa passam por aqui, mas nunca ficam.

As horas vão passando, o álcool escorre e minha cabeça e visão vão ficando em estado cada vez mais precário.

Jaded foi ao banheiro, mas eu, mesmo depois de tanta bebida não sinto vontade de urinar.

Começo definitivamente a não me sentir bem e neste momento um quarto é o melhor lugar para se estar, por isso me dirijo até o meu, fecho a porta e me sento na cadeira em frente à janela. Respiro um ar puro, novo e tento fazer com que este surto vá embora.

_ O que você tem? – Jaded pergunta entrando no quarto

_ Nada, estou apenas respirando um ar sem tanta fumaça química.

_ Acho que a última noite não conseguiu saciar seus desejos!

_ Talvez não!

Acho que sexo está se tornando um vício sem fim para mim. Toda vez que me vejo mal, pratico um pouco desse esporte.

E assim começamos a fazê-lo. Olho para o corpo de Jaded, nunca havia percebido toda a sua beleza como faço agora. Tudo ao meu redor parece ganhar proporções diferentes das reais. Todas aquelas curvas me atraem como nunca. Seus cabelos soltos e sua expressão de garota revoltada agora reluzem como nunca. Tudo isso me faz explodir em um êxtase animalesco. Trepamos muito até nos saciarmos de maneira entorpecedora. A noite quente e úmida faz com que suemos muito por toda a cama de lençóis brancos que se mistura à penumbra formada nos cantos das paredes.

Depois de tudo isso, me sento na cama e Jaded se deita a meu lado. Acendo um cigarro que se encontra no criado mudo ao meu lado, deslocado pelos movimentos bruscos da cama. O tempo vai passando vagarosamente, como acontece enquanto se sente bem. A fumaça se espalha pelo quarto e Jaded cai no sono.

Levanto-me e sigo em direção à janela. Abandono por alguns minutos os cachos dourados da bela garota debruçada sobre o meu peito. Busco um lugar onde meus olhos possam se perder em meio ao horizonte, assim como faço em meu terraço. O vento bate suavemente em meu rosto fazendo com que uma sensação de liberdade tome conta do meu corpo. Minhas pernas balançam vinte e sete andares acima do chão. Não há liberdade tamanha quanto quando se está frente ao perigo iminente. Vou me distraindo com a música que a pouco coloquei para tocar. Começo a enxergar tudo ao meu redor exatamente como quero que seja. Sentado, pernas ao vento, liberdade e um desprendimento inédito. Procuro por minhas lembranças, meus conceitos, minhas idéias, mas nada me incomoda, simplesmente porque nada mais existe. Olho para baixo e avisto na direção em que minhas pernas apontam, exatamente vinte e seis andares abaixo, uma grande piscina de águas quentes se formando, me entretenho com isso como há muito não fazia. Tudo não passa de uma miragem e eu sei disso, Jaded também sabe, mas infelizmente as coisas boas da vida não passam de uma miragem que nós mesmos projetamos e por isso eu acredito e participo das minhas. Olhos para minhas mãos e as sinto derretendo, pequenas gotas de água passam pelo meu corpo e fazem com que este comece a se deslocar vagarosamente em direção àquela miragem que talvez me tornará mais limpo. A frequência das gotas escorrendo pelo meu corpo aumenta, ao contrário da distância entre eu e aquela piscina, porém a velocidade ainda é baixa. Tento distrair, nada me vem à cabeça e de repente nada mais escuto e nada mais sinto, exceto a música que continua a tocar na minha cabeça.

Eu caí!?

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