Sinopse - Disritmia

Dante observa atentamente a paisagem ao alcance dos seus olhos. Do 27º andar do prédio, o dia é úmido e o calor intensifica seu contato com o ar. Nada mais faz sentido a partir do momento em que nada se sabe a seu respeito. A vida torna-se um mosaico cujos fragmentos não se encaixam.

Dias se passaram até aquele momento. Dias de pura incompreensão, dias de revelações que traziam a luz e em seguida a levava. Jaded fez parte desse processo. Uma namorada presente e uma desconhecida na relação.

Jacques era a companhia em irmandade. Quando Dante tenta alcançar o mundo ao seu redor, de repente, tudo se reduz à consequência de um ato. Sua força motriz é entender o que aconteceu.

Capítulos 7, 8 e 9

7

Nada controlável passa pela mente quando se está dormindo. Uma cadeia infinita de pensamentos ou criações nas quais se busca idealizar um contexto, de maneira a desenvolver algo que não se tem.

É difícil assimilar a massa de ideias que se cria ao se afastar tanto do mundo real. Os espaços em branco se preenchem, querendo ou não, através de influências do que se deseja, para entrar em contato com algo que se encontra mais distante do que se possa alcançar.

Uma sala em um apartamento, localizado em algum prédio de alguma parte da cidade. Sangue, não muito, mas o bastante para chocar quem não pode suportar a dor de uma perda. Milhões de emoções sentidas ao mesmo tempo, nada que leve à concretização de um sentimento como saudade ou algo parecido. Tudo premeditado se torna aceitável, mesmo que não se saiba de onde vem tanta vontade de se ver em um lugar distante do que se tem, ou do que foi conquistado.

A chave do medo se transforma em alegria e entretenimento. Quadros, um telefone e uma porta que supostamente, não deveria estar arrombada, mas que, por ser de um lugar onde se esconde aquilo que queima por dentro, não pode ser aberta por uma chave ou coisa parecida.


8

O rádio relógio que se encontra sobre a mesa marca oito horas da manhã. Olho a minha volta, procuro me lembrar lentamente onde estou e o faço. Levanto, chamo por Milena, sua porta, porém, está fechada. Pelo visto, ela não tem de acordar cedo hoje.

Preparo um café, não sei levantar sem tomar um. Preciso falar com Jacques. Lavo meu rosto e escrevo um bilhete para ela em agradecimento por tudo. Deixo o apartamento e quando fecho a porta sinto uma dor no meu ombro. Está cortado e recordo claramente com tudo aconteceu. Não esperarei pela nova camisa, meu casaco esconderá essa bagunça por enquanto.

O prédio não possui movimento algum a essa hora da manhã. As ruas, ao contrário, parecem iniciar um longo dia de trabalho. Sigo por elas em direção à estação, pensando nas respostas que procuro. Penso também em Milena e na noite de ontem. Há muito tempo não me divertia e, apesar de tudo, ontem isso foi possível. Amizade de balcão ou algo que prevalecerá? Só o tempo pode dizer.

O metrô lotado começa a deixar a estação e eu com ele. Esse ambiente fechado me faz sentir náuseas e falta de ar, talvez eu devesse procurar um médico, mas sei que isso é passageiro, assim como eu aqui.

Chego a meu destino e mais uma vez o barulho da porta se abrindo é insuportável. Ando pela estação e me lembro de Jaded, não tenho seu telefone e nem endereço e talvez ela não me procure, mas o problema é que não sei o que sentir em relação a isso, saudade, solidão ou algo semelhante?

Meu apartamento está próximo. Sigo pelas ruas de costume e, logo ao chegar na minha rua, vejo mais de meia dúzia de viaturas policiais paradas na porta do meu prédio. O síndico, o único cujo rosto que conheço, grita como um louco “por aqui, por aqui... ele está no 301”. Escuto esse número e, para mim, não soa como boa coisa. Corro em direção ao meu edifício, enquanto os policiais começam a cercá-lo.

_O que aconteceu? – pergunto ao síndico.

_Desculpe, Dante, mas ele estava batendo na porta e depois ela estava aberta, então eu achei melhor chamar a polícia.

Não pergunto quem é ele, na verdade tenho um palpite. Subo as escadas e percebo alguns comprimidos espalhados no canto de um dos degraus. A entrada do meu apartamento já se encontra tomada por policiais. Eles me impedem de entrar, mas eu forço entrada. Na sala eu vejo, rodeado por policiais, tirando fotografias, o corpo de Jacques no chão. Seus olhos abertos e sangue coagulado no nariz não negam que está morto.

Deixo o local assim com entrei. As escadas são como um caminho para redenção. O maldito síndico grita dizendo que tenho que prestar depoimento. Foda-se o depoimento, meu melhor amigo está morto e não há nada pior para acontecer no momento.

Sigo correndo pelas ruas, não sei em direção a que, apenas corro para aliviar o sofrimento que, neste momento, me corrói. Tudo a minha volta parece apontar para mim, esqueci quem sou, o que fiz o que farei, meus passos são esteiras de aço que perfuram o chão neste momento. A minha falta de lembranças começa a ampliar seu espectro, porque o que mais odeio é viver mortes eternas e é isso que as lembranças fazem com as pessoas de quem eu gosto, as matam se possível todos dias e todas as horas. O tempo parece não ter lugar mais para existir e minha vida começa a se tornar complicada demais para a minha compreensão. Os sentimentos, os pensamentos, as atitudes, nada leva a uma mesma coisa e sim a uma teia delas, o que faz com que tudo se torne um emaranhado de fatos sem sentido. O que eu andei fazendo nesses últimos dias que não me lembro? Talvez eu não me lembre pela falta de capacidade armazenamento das minhas atitudes. Tento entender porque, às vezes, olho para os lados e sinto como se estivesse a um ou dois degraus acima de tudo que vejo. As coisas não acontecem em um mesmo plano.

Pego um ônibus em direção ao mirante. Lá é o único lugar onde posso sentir um pouco de paz agora. Não sinto vontade de chorar e isso me parece estranho, estou morto demais para poder demonstrar qualquer emoção.

O ônibus pára em frente ao mirante, ponto final. Eu desço e sigo até a mureta na qual gosto de me sentar, sozinho e pensar um pouco na vida. Percebo, agora, o cara sozinho que sempre fui. O pequeno ponto isolado com todos ao redor, mas sempre fazendo tudo para ignorá-los. Às vezes, penso que a única explicação para eu ter me tornado a pessoa que sou, é o fato de uma nova vida morrer e nascer em mim através de ciclos. Pareço não possuir nada armazenado, como se costuma acontecer a uma vida de experiências. O fato de nada estabelecer coesão, não faz dos meus dias episódios e sim curtametragens. Esperar pelo pôr do sol significa fechar mais uma vez o fato que faz com que um dia se transforme em uma página que, traduzindo em escalas temporais, se equivale a dois minutos e meio.


9

Mais uma página começa a se concluir. As horas passaram e eu praticamente não me movi. Sinto-me como um feto que não quer nascer. Passei mais de sete horas olhando para o horizonte. Começo perceber a falta que Jacques vai me fazer. Éramos como irmãos, sempre juntos, nos divertindo e nos completando.

Penso em alguém com quem possa conversar ou beber um pouco em um momento como esse, mas vejo que me isolei mais do que poderia. A única pessoa com quem me relacionei nesses últimos seis meses, além de Jacques, foi Jaded e eu não sei por onde ela deve estar agora, ou talvez eu saiba, porém não como chegar lá.

Há mais de um ano não assisto televisão, meu dia se resume em ler, tocar e trepar. Um momento de acidez me toma a carne. Não me desliguei de tudo por imposição, apenas por vontade própria. Cada vez que assistia um jornal, me sentia mais revoltado e entediado. É tudo falso, mas o pior é que a maquiagem se estende a cada dia e todas as paisagens são colonizadas por máscaras pasteurizadas.

Finalmente desço da mureta onde fiquei observando o nada. Desvio o meu olhar, e, para minha infelicidade , vejo que nada mudou, está tudo exatamente como vi há algumas horas.

Mais uma vez tomo um ônibus sem direção certa. Talvez eu deva ir ao meu apartamento ou talvez para um lugar longe de lá.

Hipocrisia e apatia vão tornando-se o lema das novas gerações. Até essa aurora eu ainda acreditava que estava fazendo diferente, agora não importa mais.

O ônibus pára, e eu desço a três quarteirões de meu apartamento. Não sei se tenho forças para encarar o lugar onde perdi alguém tão importante. De repente, penso em Milena, no momento é a única pessoa que conheço por mais de doze horas.

Não sei a razão, mas vou atrás dela. É quase impossível pensar racionalmente em um momento como este. Sigo pela avenida principal em direção ao metrô. Procuro acreditar que algo de bom acontecerá.

A situação de vida de cada pessoa pode ser evidenciada pela sua face, dentro de um metrô é possível examinar os vários estados de espírito. Os problemas na maioria das vezes são criados por quem os vivencia, justamente pelo fato de só quem sofre com eles é que realmente acredita que estão acontecendo.

O metrô desacelera lentamente até parar, quando então as portas se abrem. A estação retrata o movimento de uma cidade às seis horas da tarde. Aos poucos vai se tornando um emaranhado de pessoas, poeira, carros e o que a sociedade moderna pode oferecer. Tudo acontece como sempre deve acontecer, nos mesmos dias, nas mesmas horas. A única coisa que muda são as coordenadas, dias, meses, anos, e, quando isso acontece, passam de problemas para cânceres cultivados. Começam a cavar tão fundo que infiltram em seu ponto fraco e, é neste momento que o amor pela vida passa a não mais existir. Você chora por causa de suas fraquezas diante do que enfrenta e isso o leva a acreditar que não pode mais ir em frente.

Eu sempre busco esquecer os meus problemas. Em grande parte, consigo, andando pelas ruas sem direção e sem destino. Mas hoje o meu problema sugere os dois. Não consigo desviar meu pensamento, me sinto sem companhia em um mundo de bilhões de pessoas.

Não sei como, mas não esqueci o caminho até o edifício de Milena. Há um bom tempo minha memorização, especialmente sobre rotas, não anda muito boa, quase como um GPS sem aptidões cartográficas.

Poucos quarteirões percorridos, quase na rua do prédio de Milena, a chuva começa a cair forte. Nem havia percebido a mudança no tempo. Acelero meu passo, mas a chuva consegue me molhar muito antes de chegar ao destino.

A porta de entrada está aberta e a chuva que se move com o vento entra por ela. Fecho rapidamente, logo depois de adentrar ao corredor. Não deveria, mas sigo pelas escadas de madeira sem hesitar. Depois de dois lances chego ao andar do aparamento. A frase contínua, as mandalas foram alteradas de ordem. Toco a campainha, momentos singulares como esse ansiosamente dilatam as pupilas. Ninguém atende. As luzes estão acesas. Toco pela terceira vez, a ansiedade se acirra. Milena abre a porta, porém só o tanto que a corrente permite. Ela apenas olha de lado.

_Um pouco tarde para encontramos a sua camisa – ela exclama enquanto fecha e abre a porta totalmente.

_Não há controle Milena.

_Entre – ela diz em tom compreensivo.

Não sei o que dizer. Na verdade não sei o que vim fazer aqui. Conheci a garota há poucas horas e a procuro em busca de algo.

_Tudo bem Dante?

_Incomodo?

_Como foi o seu dia?

Estratégias de sondagem.

_Você não vai querer saber!

_Dante não sei se é um bom momento. Sente-se que já volto – ela diz enquanto desloca-se até o banheiro.

Alguns minutos se passaram e ela não retorna. Começo a ficar preocupado. Chamo pelo seu nome. Ela não responde. A chuva ainda forte me entretém ao escorrer gentilmente pelo vidro da janela.

Assumo o controle, sigo em direção ao banheiro, a porta está apenas encostada, luzes apagadas, não há ninguém. Daqui é possível ver o quarto. Porta aberta, Milena sobre a cama. Uma suave fresta na cortina permite a entrada do feixe de luz que vem da rua. Ao aproximar em passos leves percebo uma caixa de medicamentos no criado mudo. Calmantes, o sono já lhe consome.

Não sei o que pensar em situações como essa. Perdi meu melhor amigo hoje e, horas depois, percebo que alguém a quem eu possa pedir ajuda, parece necessitar dela.

Talvez os conflitos internos estejam tomando proporções que as pessoas estão perdendo totalmente a capacidade de lidar com eles. A vida parece perfeita demais para se supor que algum distúrbio possa existir. Progresso, conforto, tecnologia, riqueza e, o pior de tudo, pobreza mental e por falta de estímulos faz com que a vida dentro de cada um morra aos poucos, sem que a própria vítima perceba. É como se o vivenciado fosse voltado para fora, para refletir as imagens que deturpam nossas cabeças. Cria-se um imenso campo de ilusão onde o centro de tudo são as expectativas de vida. Talvez passar a dor para frente seja mais fácil do que assimilá-la, superar os problemas antes de aceitá-los é impossível. A corrente da vida se estabelece a partir do momento em que alguém apóia sua concepção em conceitos alheios e assim o grande emaranhado de apatia é multiplicado.

Vinte minutos se passaram. Milena dorme bem. Não sei o que ainda faço aqui neste apartamento. Chaves debaixo da porta.

Sigo em direção a meu apartamento, talvez pior do que quanto cheguei, sem respostas e com a cabeça a mil.

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