Sinopse - Disritmia

Dante observa atentamente a paisagem ao alcance dos seus olhos. Do 27º andar do prédio, o dia é úmido e o calor intensifica seu contato com o ar. Nada mais faz sentido a partir do momento em que nada se sabe a seu respeito. A vida torna-se um mosaico cujos fragmentos não se encaixam.

Dias se passaram até aquele momento. Dias de pura incompreensão, dias de revelações que traziam a luz e em seguida a levava. Jaded fez parte desse processo. Uma namorada presente e uma desconhecida na relação.

Jacques era a companhia em irmandade. Quando Dante tenta alcançar o mundo ao seu redor, de repente, tudo se reduz à consequência de um ato. Sua força motriz é entender o que aconteceu.

Introdução (Capítulo 1)




Trilha Sonora: Riders On The Storm (The Doors)

Sábado. Há dois meses não tenho uma noite de sono completo. Às vezes me movo de um lado para o outro da cama durante quatro horas. Sexo, massagens, chás, calmantes... nada consegue me proporcionar um sono em paz. Adormeço às quatro da madrugada, mas às cinco e quarenta já estou acordado. Se durmo sob efeito de alguma coisa, meu sono de oito horas me deixa mais cansado do que estava quando me deitei.

Há dias passo as noites, aqui, no telhado do meu prédio, que por sinal é muito simples, situado no bairro Jardins, rua 9. Os meus vizinhos nunca vêm aqui, acho que sou o único que possui as chaves.

Tem chovido muito e, às vezes, fica difícil ficar debaixo do pequeno toldo, que cobre somente alguns metros quadrados.

Já passam das cinco horas da madrugada e a iluminação da avenida principal começa a se apagar lentamente, prendendo a minha atenção, me levando a tentar prever qual será a próxima lâmpada a se apagar, enquanto no horizonte surgem tonalidades em mutação.

Nos últimos dias, venho me sentindo mais estranho do que o normal. Tenho tentado sentir saudade de algo da minha vida, mas eu não consigo. Ando muito por todas as ruas para estimular lembranças em meu cérebro, mas é inútil. A parte viva da minha mente parece não mais existir.

Minha vida não passa mais com o tempo. A cada minuto, uma peça ou azulejo do meu mundo cai. Não tenho nada em que acreditar. Tudo existe, nada se completa. Está tudo em um espaço só, porém em coordenadas diferentes. Tudo flutua e fica por horas vagando, mas nada se encaixa. Não existem motivos para mais nada. É como se estivesse morto, mas não percebi ainda.

Não sinto amor, ódio, repugnância, vergonha dor, nada, principalmente dor. Um completo estado de latência orgânica me ocupa. Tenho me perguntado o porquê disso tudo. Parece que o mundo deixou de existir no exato momento em que eu deveria me dar conta de sua existência.

O meu mundo é o que eu quero ser, meus sonhos, meus desejos, minha realidade. Minha realidade porque eu controlo tudo, eu mudo de canal no momento que quiser. Mas eu perdi o controle com o qual fazia tudo isso. Tudo muda a todo momento, mas o canal da minha preferência está trancado, eu perdi as chaves.

Muitas coisas estranhas vêm acontecendo em minha vida. Não consigo parar de conversar comigo mesmo quando estou sozinho, minhas pernas têm andado me desobedecendo muito, minhas pupilas se dilatam automaticamente todos os dias às 17 horas em ponto (mesmo sem fumar uma erva), e o pior, há meses não me lembro de meus sonhos, ou seja, não tenho mais estímulos para nada. Minha vida parece seguir um piloto automático que nunca programei.

Sinto que meu corpo se tornou um grande armário durante meus anos de vida. Armário em que minha mente deposita todas as decepções, ao invés tentar superá-las. Não posso lutar contra isso, não controlo mais a minha mente (acho que nunca a controlei de verdade). Sou um escravo do meu próprio ser, do ser que nasceu comigo, mas parece não mais gostar de mim.

As poucas pessoas com quem convivo confirmam isso. Jaded, minha namorada, acho que não notou muita diferença. Para ela apensa uma noite de sexo como a de hoje prova bem que estou normal. Mas a questão é que nada mais me entretém. Faço coisas, até as pequenas como preparar um café, fazer a cama, usar o computador com uma violência que parece se descarregar através das minhas mãos sem que eu sinta.

Às vezes me encontro em situações de surtos por falta de alimentação. Esqueço-me de comer e a fome não ajuda a lembrar. Jacques, meu melhor e único amigo, praticamente meu irmão, tem percebido muito meu estado temporalmente alterado. Afastei-me subitamente dele, mas quando saímos juntos, não consigo me sentir bem. Há meses sempre arrumamos uma confusão na rua. Minha violência estimulada pelo meu sistema límbico faz com Jacques se divirta muito. Ele adora coisas diferentes, sejam elas normais, aceitáveis ou não. Eu também costumava gostar, mas agora sou eu quem cria as situações e isso tem mexido muito comigo.

O sol já impossibilita minha estadia aqui, meus olhos não suportam a claridade do amanhecer há um bom tempo. Jaded está me esperando lá embaixo, mas com certeza dormindo, porque em noites de sexo como a de hoje, sua média de sono é de dez horas. Cada vez que a vejo dormir assim me assusto mais, pelo fato de chegar à conclusão de que realmente no mento não sou a pessoa mais normal do mundo.

Meu apartamento é o 301. São apenas quatro lances de escada até o telhado, sendo dois do até o quarto andar. Não conheço nenhum dos meus vizinhos, apenas digo “oi” e “tchau” para o síndico, que é quem recebe o dinheiro do condomínio. Ele é um cara mais velho que mora no 202, parece ser uma boa pessoa. Nunca reclamou de nada, mas também não há motivos. Acho que quem mais reclama aqui sou eu, mas sempre em voz baixa. O fato é que não suporto a sujeira do telhado, que, às vezes, eu limpo e das escadas que definitivamente nunca limparei.

A minha porta normalmente fica destrancada, quando vou até o telhado e hoje não está diferente. Meu apartamento possui uma sala conjugada a uma cozinha bem pequena, tendo apenas duas janelas nessa espécie de cômodo. Na parte de dentro, um corredor leva até o meu quarto, que fica ao lado de outro pequeno cômodo que uso com escritório e estúdio, e logo à frente dos dois está o pequeno banheiro.

Como eu previa, Jaded ainda dorme muito profundamente. Não vejo a hora de dispensá-la logo para eu poder terminar o pouco serviço que tenho de fazer e depois ir para casa de Jacques, porque hoje sairemos à noite, só nos dois como há um bom tempo não fazemos.

Preciso dar uma volta, esfriar um pouco a cabeça e esquecer que Jaded está aqui. Meu bairro não oferece muito entretenimento. As ruas por aqui não costumam estar muito cheias no fim de semana, especialmente a essa hora.

Gosto de andar pelas ruas em geral, uma terapia para desligar até me ver totalmente desatenção. Por isso gosto de me guiar sempre pela avenida principal. Nela, há a estação de metrô, alguns bares e a umas seis quadras do meu apartamento um supermercado que é para onde eu costumo ir em dias como este, às vezes tomar uma vodka, mas em dias frios apenas um café expresso.

O que as avenidas como essa tem a oferecer são pessoas sempre de passagem, o que me leva a ver constantemente caras novas apesar de que a grande maioria delas não convide a nenhum tipo de exploração visual, mas nos dias em que eu vejo que não compensa procurar por nada, apenas me desligo com a máxima naturalidade possível.

Estou com dúvida hoje, principalmente porque me encontro em frente a uma das gôndolas enormes do supermercado. Todas essas prateleiras empilhadas e recheadas de produtos que só faltam falar, especialmente as bebidas de cores diferentes. Vodka, energético, ou alguma das bebidas menos usuais, não sei o que beber. Mas acho que hoje nada conseguirá me fazer tão bem como um pouco de vodka, preciso relaxar.

Quando bebo, normalmente me sento no banco que fica à frente do supermercado, exatamente debaixo do letreiro luminoso colado no blindex da porta principal, mas hoje me sentarei no pequeno meio fio do amplo estacionamento, também é um bom lugar para se estar.

Espero calmamente o tempo passar, graças à pequena garrafa gelada que se encontra na minha mão esquerda. Penso um pouco na minha relação com Jaded. Seis meses, muito sexo, pouco ou nenhum amor. Vivemos aquela relação tanto faz. Ela gosta de estar ao meu lado e eu sei disso, mesmo sem saber a razão.

Ela é uma garota linda, loira, magra, dona de uma personalidade um pouco espontânea e agressiva. Seus cabelos, além de loiros são anelados. Tem um rosto branco, mas não tão chamativo por causa da sua expressão fechada com que ela anda quase sempre. Gosto de estar com ela, é uma boa companhia para as aventuras, mas o fato é que há algumas semanas não a tenho suportado.

Acho que pensei demais. O supermercado começa a se encher, assim como o estacionamento e isso é sinal de que está ficando tarde. Tomei apenas uma garrafa, mas, com certeza, levarei mais três, uma para o caminho e duas para o restante do dia, um pouco atarefado.

Adoro o meu trabalho. Ele se baseia em música, trabalho com algumas melodias, dá para tirar uma grana que me sustente. Às vezes as coisas ficam um pouco paradas. A minha caixa de e-mail, que é por onde as encomendas de serviço chegam, às vezes, fica vazia. Nesses momentos, preciso procurar algo alternativo, como tocar em bares. Me viro bem nessa vida.

Meu quarto está com janela e as cortinas fechadas, sinal de que Jaded ainda se encontra desmaiada, digo para ela sempre abrir a janela depois de se levantar.

Sinto-me mais relaxado depois de duas garrafas de vodka. Talvez eu consiga dormir um pouco daqui algum tempo. Para variar esqueci a porta destrancada, tenho de perder esse costume, a cidade está cada vez mais perigosa.

_ Já bebendo, insoniomaníaco - Jaded diz, logo depois de ouvir o girar da chave.

_ Primeiramente, bom dia e estou bebendo para relaxar um pouco.

_ Quanto mau humor!!! Passou a noite naquele telhado de novo?

_ Passei, por sinal uma ótima noite!

_ Consigo ver pelos seus olhos!

_ Tudo bem, Jaded, não precisa começar a descrever minha aparência como você normalmente faz!!

_ Não farei isso hoje, Dante. Estou com um pouco de pressa, tenho muitas coisas para resolver. Vou tomar um banho!

_ Não se esqueça de que a tolha está pendurada logo ali – digo apontando para o pequeno varal logo acima do tanque que fica no fundo da pequena cozinha.

Na verdade, ouvir de Jaded que ela já vai sai me encheu de alívio. Preciso de um tempo sozinho, ela está aqui há três dias.

Passados quarenta minutos, ela finalmente está pronta para sair.

_ Como estou – ela pergunta.

_ Linda como sempre – eu respondo não vendo a hora dela cruzar a porta.

_ Já vou indo, então – ela diz me dando um beijo de despedida.

_ Não se esqueça da festa na casa de Jacques amanhã – digo a ela antes de fechar a porta.

Não queria que ela fosse nessa festa, mas Jacques, sem intenção, conversou dos preparativos na frente dela.

Sinto-me um pouco tonto, mas acho que com toda razão, já vão dar onze horas da manhã e eu ainda não dormi e nem comi. Mas acho que agora é hora de dormir, até porque me apago no sofá quase que involuntariamente.

2 comentários:

F disse...

é uma autobiografia?

Disritmia - O Livro disse...

Não é uma autobiografia. Mas uma narrativa repleta que processos e relações de um período.